agosto 26, 2013

Quer morar no interior?


Residir numa cidade interiorana de pequeno porte, até 50.000 habitantes, por exemplo, pode ser bom e proveitoso para ambos: o (a) aposentado (a) e a cidade. Esta ganha, novo/velho habitante, quase sempre com iniciativas voluntárias a beneficiar a comunidade local, aquele (a) ganha com ritmo de vida mais sossegado, menos poluição, mais calor humano. Não raro, os que chegam, acabam trazendo coisas novas, maneiras diferentes de solucionar problemas, contribuem com artigos publicados nos periódicos locais, programas voluntários de ajuda ao próximo, e até se unem aos demais colegas em situação semelhante e trabalham!

Esse trabalho, de ajuda recíproca ou troca, chega a ser modelo de tão interessante! Algumas pessoas já trazem idéias do que fazer: arte, artesanato, plantação, colheita, consertos, livro, resgate da história local e até reformas e construções. Nem sempre edificam primeiramente o próprio sonho, pois aprenderam na vida a discutir de maneira democrática o mais necessário ao momento.

Ser bem recebido (a) é essencial aos primeiros contatos. Geralmente são os parentes a fazer isto. O primeiro círculo de amizades é de parentes dos parentes e de amigos dos amigos. Depois vêm os colegas do “jaque”. São os que, despretensiosamente se aproximam, entabulam conversa e fazem o convite:

-“Já que” você encontra-se aposentado, quem sabe aparece um dia na nossa Associação a colaborar conosco? _E é assim que o novato vai tornando-se de casa. 

Ao chegar, em sua terra natal, tímida e modestamente aposentada, Rosa curtiu a ausência do horário rigoroso de seu emprego e a liberdade só experimentada ali mesmo, em tempos idos de uma “infância querida, da aurora da vida”, que nada faria voltar.

Logo descobriram sua habilidade artística e ela ensaiou uma ida regular às escolas locais para ajudar no que fosse necessário.

No inverno, saindo à caminhada, de manhãzinha, teve ímpeto de voltar assustada com as pessoas que viu nas esquinas e portas das casas: vestidas de roupas pouco comuns, algumas peças superpostas, gorro, luvas e ainda carregando um embornal de forma e cor indefinidas (depois soube que dentro havia marmita e garrafa térmica). Aguardavam ali a passagem da condução a levá-las: caminhão com capota de lona e bancos na carroceria. Eram os apanhadores da safra anual de café, seguindo para as fazendas, sítios, chácaras, roças donde traziam sustento pro ano todo. Ao ser proibido esse tipo de transporte de risco, pelo número de vítimas feitas no país, novas soluções surgiram: eram kombis, vans, carros comuns a fazer o transporte do trabalhador para o meio rural. Os mais jovens até tentaram ir de moto para descobrirem, que esse veículo era muito caro para se acabar na poeira do chão irregular, sujeito a chuvas, derrapagens de encontro a pedras e barrancos e muitos dias de molho para curar as dores.

Rosa decide então que vai retratar tudo aquilo em sua arte. Pintou um quadro, dois, vários... Tudo em tons suaves, idealizado, quase romântico!

Não satisfeita resolve ver de perto a atividade da colheita. Tinha umas amizades na vizinhança, conversou e foi junto numa manhã de julho, o mês mais frio do ano. Lá chegando, andou pelas ruas do café, observou, perguntou e arriscou a ajudar uma idosa a encher o pano. Encerrando a jornada, voltou pra casa e pôs tudo no computador.

Era um pessoal que acordava muito cedo, antes do sol. De muita coragem pra se por de pé naquela friagem da madrugada. Muito trabalhador também, pois começava o dia preparando café pra beber e encher as garrafas, e o almoço que ia levar.

A condução passava e pegava os apanhadores de café conforme o combinado: na porta de casa, em grupos nas esquinas, ou uns nas casas dos outros colegas. Se parasse menos seria mais rendoso o tempo, o serviço, o dinheiro. E lá iam eles sacolejando nas poeirentas estradas rurais. Nem conversavam. Uns conseguiam cochilar, talvez pela idade que já não era pouca. Nem muita, mas apresentavam bem mais do que os anos vividos na luta pela sobrevivência com o suor do rosto. Dizem que a vida saudável do campo faz viver bem. Ali, observando rostos, cabelos, mãos e pés deles, não dava para concluir que desfrutavam de boa qualidade de vida. Alguns vestiam a mesma roupa a semana toda, para ver água e sabão só no sábado, quando tinham tempo. As luvas, que seriam proteção, desgastavam-se depressa e eram usadas assim mesmo. Os calçados variavam de botinas de couro, tênis surrados, a botas e chinelos de borracha. Enquanto os homens cobriam a cabeça com boné ou chapéu de palha, as mulheres amarravam lenço sobre os cabelos, antes de colocar o chapéu.

Chegando à plantação, a turma se espalha pelas ruas de café, dando continuidade ao serviço já começado anteriormente. Pano estendido ao chão, mãos à obra, de galho em galho, derrubando os frutos vermelhos e brilhantes.

Completando a capacidade do pano, cada apanhador leva ao “tomador de conta” que registra diante do nome a quantidade de fruto colhida. Sempre os mais jovens à frente, enchendo panos e mais panos, em seguida as mulheres e depois os idosos, todos satisfeitos com o pagamento na sexta feira. Depois de almoçarem e descansarem proseando por ali mesmo, a tarde voa.

A região não sofre desemprego esporádico. Ora colhendo café, ora tangerina, é possível obter dinheiro pro ano todo. De tradição rural, os que residem no campo conseguem fazer render os ganhos com energia elétrica mais barata e água de mina. Os residentes na cidade complementam a renda com o trabalho de domésticos.

Às dezesseis horas saem todos juntos, cansados, na condução que os trouxe. Mães de família passam nas creches pegando os filhos pequenos antes de retornar ao lar para as tarefas restantes. Outras aguardam em casa o ônibus escolar a trazer o resto da turma.

Assim passa o período da colheita.

Há quem diga que os apanhadores de safra ganham muito bem. Rosa conclui que ganham com muita honradez o pão nosso de cada dia, isto sim. São bons exemplos de gente que trabalha para o engrandecimento do país!

E o quadro pintado por ela depois dessas andanças, ficou tão realista que se podia sentir o sabor e o cheiro de café coado na hora.

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Elisabeth Carvalho Santos desde alfabetizada lê tudo que aparece à sua volta. Depois de aposentada professora (não de Português) resolveu escrever. Colabora com o jornalzinho da família, participa de concurso cultural e coleciona seus textos para publicar oportunamente. Os assuntos brotam de suas observações, das conversas com amigos e são temperados com pitadas de imaginação e bom humor. Costuma afirmar que "escrever é um trabalho prazeroso e/ou um lazer trabalhoso que todo alfabetizado deveria experimentar algum dia".

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