fevereiro 21, 2020

Coisas de vovó

Por Elisabeth Santos


Um neném passa a não ter cólicas aos três meses de vida. É a grande esperança que temos ao lidar com um recém-nascido. No decorrer dos primeiros noventa dias, seus pais ficam pensando no porquê de tanta dor num ser tão pequenino, que acaba de chegar ao mundo. A Ciência responde atribuindo ao amadurecimento do aparelho digestivo. O jeito é ter paciência, e aguardar.

E o período de cólicas passou!

Notamos que hoje o bebê é bem mais feliz. Acorda de manhãzinha emitindo uns sons que não tem nada a ver com choro. Mama. Fica acordado brincando com as mãos. Leva-as a boca. Sabe que tem os bracinhos para movimentar e parece dar uns golpes a esmo, pois sua coordenação é pouca.

Atingindo sua própria face abre a boca num choro de susto. Quem está por perto lhe faz um carinho, conversa com ele que parece responder.

É uma fase interessante. A criança imita quem lhe dirige a palavra. Sorri. E a gente até acha que ela está entendendo tudinho.

Adulto: _ Você é o príncipe reinante nesta casa, não é mesmo?

Neném sabido: _ É... é.

Vovó: _ Então o que o menininho vai querer no almoço?

Neném: _ Agú... agú!

Mamãe: _ A vovó pode fazer o angu, mas você não vai provar...

Vovô: _ Mas você meu netinho esperto, vai passear de carro comigo. Não vai?

Netinho: _ Ô... ô...ô...

Responde o pequeno afirmando que vai com o ‘vô sim.

Ele ama passear de carro. Fica tranquilo. Tira uma soneca.

Nós adultos gostamos muito dessa fase quando interpretamos os sons que as crianças emitem. Algumas vezes elas nos surpreendem. Temos curiosidades, e queremos saber o que um bebê de um país com outro idioma quer dizer balbuciando “Man”, por exemplo.

Vamos consultar a Internet?

São muitas as mudanças de um recém-nascido ao terceiro mês: Ganha peso, altura, olha com atenção os brinquedos, sorri para sua imagem no espelho, sustenta a cabeça por uns segundos, esforça para virar o corpo de lado, e é hora de cuidar em não deixa-lo sozinho fora do berço.

E a conversa com o neném continua:

_ E aí meu pequeno? Vai mesmo passear de avião com a vovó?

Coincidência ou não... Ouvi um balbucio:

_ In... inn...

Seria uma resposta positiva?

Cedo ainda para afirmar.

No colinho da minha vovó.







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Elisabeth Carvalho Santos desde alfabetizada lê tudo que aparece à sua volta. Depois de aposentada professora (não de Português) resolveu escrever. Colabora com o jornalzinho da família, participa de concurso cultural e coleciona seus textos para publicar oportunamente. Os assuntos brotam de suas observações, das conversas com amigos e são temperados com pitadas de imaginação e bom humor. Costuma afirmar que "escrever é um trabalho prazeroso e/ou um lazer trabalhoso que todo alfabetizado deveria experimentar algum dia".

fevereiro 14, 2020

O neném

Por Elisabeth Santos


Ele entrou no quarto mês crescido, gordinho e muito sabido. Descobriu novos sons. Saiu do “agui”, “agú” e experimentou um som gutural no “agruuu” que a gente interpreta como uma vontade precoce de encarar Agronegócio. Não é só excesso de imaginação de vovó Coruja. Existindo muito verde ao redor da casa, e passeando pelo quintal com o neném nos braços, observei o quanto ele dirige seu olhar curioso, para os galhos das árvores balançando ao vento. Interpretei seu “agrú” como Agro porque pronuncio “o” com a sonoridade de “u”. Assim ficamos em nosso diálogo mais que precoce:

_ Então Tonico você pretende trabalhar com Agro?

E Tonico repete:

_ Agruuu, agruuuu...

É divertido e ambos sorrimos.

Sei que nenéns balbuciam, talvez tentando imitar o que ouvem no ambiente familiar. Acontece aqui uma disputa: alguém quer ouvi-lo dizer ‘vô; outra pessoa quer que seja “papaa”, mas estou afirmando que seu primeiro balbucio, reconhecendo a progenitora, será mamã!

Não fizemos aposta, porém Tonico terá de repetir o feito diante de outras testemunhas, que não seja o ‘vô, o “papaa”, a mamã... ou quem estiver na fila a ser eleito: “O(a) predileto(a) do neném!

Título este considerado muito importante, até mesmo honroso para quaisquer dos membros da nossa família.

E não é que uma tia avó manifestou outra possibilidade?

_ Acho que ele vai dizer Titi...

E a cuidadora retrucou:

_ Pode ser que ele diga Bá...

Antes que o pet resolvesse manifestar-se com seu “auau” insistente, alguém resolveu manda-lo de volta para sua casinha.









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Elisabeth Carvalho Santos desde alfabetizada lê tudo que aparece à sua volta. Depois de aposentada professora (não de Português) resolveu escrever. Colabora com o jornalzinho da família, participa de concurso cultural e coleciona seus textos para publicar oportunamente. Os assuntos brotam de suas observações, das conversas com amigos e são temperados com pitadas de imaginação e bom humor. Costuma afirmar que "escrever é um trabalho prazeroso e/ou um lazer trabalhoso que todo alfabetizado deveria experimentar algum dia".

fevereiro 07, 2020

Dentro das Contradições

Por Elisabeth Santos


Estava eu dando umas voltas ali adiante, quando me deparei com esta frase: 



Achei de achar aquilo bem curioso, e li novamente. Queria mesmo memorizar para juntar às demais contraditórias contradições que povoam minha cabeça de uns tempos pra cá.

De quem seria o dito que não era dito, mas escrito na camiseta de um rapaz? Ou seria o dito por não dito, do Benê Dito Autor? Fui pesquisar e encontrei uma música com letra inusitada. Pelo menos para mim, era sim.

Estive matutando aqui com meus cachinhos que tudo que é oposto acaba por trocar de lado. Vejam bem: A gente torce para o intestino funcionar e evacuar. Depois torce para o intestino maneirar, por ter funcionado demais da conta!

Já me ouvi dizendo: _ Deus me livre de ganhar sozinha o prêmio da Mega Sena de Natal... E ponderei ao final da frase: Mas quem me dera ganhar cem mil reais, ou dólares, euros, libras, e completar minha volta em torno do mundo.

Acho mais fácil, portanto alterar a ordem da frase e poder dizer: Quem me dera passear pelo mundo afora, mas Deus me livre de topar com um tsunami.

Existe um ditado popular que sintetiza bem os sentimentos antagônicos: “Há males que vem para o bem.” Não sei direito o que dizer sobre isto por não lembrar-me agora de uma vivência pessoal. Já ouvi de amigas que relutaram em ir a alguma festa, mas foram devido a insistentes convites de companheiras. E não é que encontraram lá seus príncipes encantados?

Também ouço causos de pessoas que aceitaram penosos desafios em seus trabalhos, e conseguiram postos de chefia ou similares; gente que sofreu revés, superou-o, e teve o reconhecimento social; ...que deixou legado importante, ou descoberta relevante, pesquisa útil à humanidade, e também invencionices para um dia a dia mais proveitoso para todo e qualquer mortal!

“Deus me livre de não ter como terminar satisfatoriamente este texto, mas quem me dera encontrar um leitor que aprecie minha sinceridade.” Se não o texto, pelo menos a ilustração poderá “viralizar” na internet trazendo-me os quinze minutos de fama preconizado por Andy Warhol (1928/1987).



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Elisabeth Carvalho Santos desde alfabetizada lê tudo que aparece à sua volta. Depois de aposentada professora (não de Português) resolveu escrever. Colabora com o jornalzinho da família, participa de concurso cultural e coleciona seus textos para publicar oportunamente. Os assuntos brotam de suas observações, das conversas com amigos e são temperados com pitadas de imaginação e bom humor. Costuma afirmar que "escrever é um trabalho prazeroso e/ou um lazer trabalhoso que todo alfabetizado deveria experimentar algum dia".

fevereiro 05, 2020

Qual foi a pergunta mais absurda a respeito do Brasil que você ouviu?


Nem todas são perguntas, outras nem são tão absurdas, mas algumas demandam respostas longas e complexas que nem sempre cabem numa roda de conversa nas festas de confraternização.
  1. "Por que vocês escrevem Brasil com S se o certo é escrever com Z?" - Depois da minha explicação ouvi isso... "Ah, por isso vi tantas pessoas com a camiseta escrito Brasil… achei que todos escreviam errado." - Sério? Todo mundo no país escrevia o nome do próprio país errado, sério mesmo??
  2. "Por que você nunca foi visitar a floresta Amazônica?" - Eu sou de Minas, meu maridoé de São Paulo e a Amazônia é longe pra cara!#*$%, cheia de mosquitos, pouco saneamento básico...
  3. Vou para São Paulo em breve, quero alugar uma Harley Davidson e ir até o Rio de Janeiro passar a tarde. - Boa sorte!
  4. Se eu estiver em São Paulo à trabalho, consigo tirar uma tarde para ir conhecer aquela cachoeira linda que todo mundo comenta (Cataratas do Iguaçu)?
  5. Por que o Brasil é tão violento?
  6. Estou indo para o Brasil, vou reservar um dia para conhecer a Amazônia, outro dia para o Rio e outro para São Paulo. - Boa sorte pra você também!
  7. Por que vocês não falam espanhol?
  8. O verão no Brasil é na mesma época que o verão aqui?
  9. O Brasil fica perto da Espanha? Ou da Rússia?
  10. "Por que você não parece ser brasileira?" - Porque não sou mulata…
  11. Por que todos os brasileiros são sorridentes e amigáveis se o Brasil é tão pobre?
  12. Você morava numa favela quando estava no Brasil?
  13. "A abreviação de Friday no Brasil é sex por que esse é o dia de vocês fazerem sexo?" - Essa foi boa, fala a verdade?"
  14. Samba para eu ver! Como assim você não sabe sambar??
A maioria são perguntas de quem não viu sequer o mapa do Brasil no contexto do mapa mundi. Nem pegou um mapa do Brasil para ter noção das distâncias ou simplesmente das dificuldades de ir até Amazônia e Cataratas durante um fim de semama. Dá para fazer? Sim, sei lá, mas vale a pena a correria, o preço e a distância para uma tarde? Não acho, mas enfim
 sigo minha vida de uma brasileira que mora fora do país.


janeiro 31, 2020

A visita da cegonha

Elisabeth Santos


Em qualquer parte do mundo a cegonha passa deixando um bebê para um casal. É lenda das mais antigas, que livrava os pais do neném da explicação às outras crianças:

_ De onde vêm os bebês.

Acreditavam os adultos de boa fé, que a inocência infantil teria de ser preservada a qualquer custo, até que atingisse a idade da razão.

Nos dias atuais poderá acontecer dos filhos mais velhos estarem explicando aos pais como as crianças vão se formando no ventre materno pós-concepção. Os livros de Ciências Naturais vistos e revistos na escola trazem todas as informações. As consultas à Internet complementam.

Aqui, neste exato momento estou abordando somente a incansável cegonha que vem de muito longe entregando os filhos aos seus pais.

A dúvida maior quanto à Dona Cegonha vem do fato concreto:

_ No meu país nascem crianças todos os dias do ano, sem que alguém tenha visto uma ave denominada Cegonha, ou outra com seu decantado bico longo sobrevoando as cidades, e os campos trazendo bebês.
Há bastante tempo ocorreu a um infante alertar sua mamãe:

 _ E se você for ao mercado e demorar, e a cegonha chegar aqui em casa para entregar o neném?

E o maiorzinho que ali perto se encontrava assim corrige:

_ Não seja bobo, nenéns vêm dentro dos repolhos que estão plantados na roça.

E o priminho, que era desta turminha resolve dar sua versão:

_ Nada disso que vocês estão a falar. Eu, por exemplo, nasci num dia de chuva. Minha mãe estava à porta da casa e pegou-me na enxurrada.

_ Como assim?

_ Foi ela mesma que me contou. Teve um sonho certa noite, que no próximo dia primeiro de abril, ia cair uma chuva forte. A enxurrada formada na sarjeta haveria de trazer um bebezinho lindo como eu. Era para ela pegar, e bem depressa levar-me para dentro de casa, vestir-me com a camisolinha bordada pela vovó, e ir deitar-se. Eu, ficando pertinho do seu corpo, estaria aquecido e com uma cor parecida com a dela.

Historinha fácil de entender.

Já em família numerosa o indício de que chegou um irmãozinho, ou irmãzinha poderia ser ainda mais fácil adivinhar: a porta pela qual as crianças passavam ao acordarem de manhã estaria fechada. A saída emergencial seria utilizada para que todos pudessem tomar café e seguir para a escola.

Quando ouviam o choro de um neném, logo em seguida aquela porta, que esteve trancada era aberta. Vinda do quarto do papai e da mamãe, uma simpática senhora com uma maleta bem segura em sua mão esquerda. Sim, ela quem trouxe a irmãzinha daquela criançada, dentro da maleta, ora bolas!

Depois, aquelas crianças saíam correndo pelas calçadas, batendo de porta em porta dos vizinhos a anunciar:

_ A mamãe ganhou neném!

Se alguém exclamasse perguntando: _ Que benção! E como está passando sua mamãe?

E se fosse eu a responder, com meus cinco aninhos, diria bem assim:

_ Mamãe está feliz, “sorrisando”! Dona Vitória está “tite”. Agola num tem mais neném na maletinha dela.

_Ora bolas!






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Elisabeth Carvalho Santos desde alfabetizada lê tudo que aparece à sua volta. Depois de aposentada professora (não de Português) resolveu escrever. Colabora com o jornalzinho da família, participa de concurso cultural e coleciona seus textos para publicar oportunamente. Os assuntos brotam de suas observações, das conversas com amigos e são temperados com pitadas de imaginação e bom humor. Costuma afirmar que "escrever é um trabalho prazeroso e/ou um lazer trabalhoso que todo alfabetizado deveria experimentar algum dia".