fevereiro 20, 2017

Como lidar com passivos-agressivos?

Mimi & Eunice Cartoon Mimi and Eunice ♡2010 by Nina Paley. Copying is an act of love. Please copy and share.

Há alguns anos escrevi sobre como lidar com a personalidade passivo-agressiva, mas ultimamente recebi um email pedindo para voltar ao assunto. Então, esse post é para você que pediu ajuda. Se, ao contrário, você chegou aqui hoje aqui estão os textos anteriores.

Alguns de nós estão bem familiarizados com os passivo-agressivos, de fato, mais do que gostaríamos. Entretanto nem sempre conseguimos os identificar a tempo... de fugir? Outros fatores também não ajudam no reconhecimento, como por exemplo a modificação do DSM (Manual de Diagnóstico de Transtornos Mentais) lá pela quinta edição onde o transtorno ficou escondido dentro de um outro ramo de desordens. Outro ponto a ressaltar são os nomes eufemísticos que muitas vezes usamos; pessoas negativistas, difíceis, traíras, etc.

Outro fator que na minha ridícula opinião distorce o entendimento é o nome passivo-agressivo. Por ser um comportamento enviesado e sutil é, por si só difícil de ser detectado, mas ficaria bem óbvio em português se chamássemos essa pessoa de agressiva-passiva ou agressivo-passivo. Então para facilitar a nossa vida, é assim mesmo que vou falar neste texto. Simplesmente porque é o que vai perceber primeiro depois de você ler mais sobre o assunto.

A agressividade-passiva (viu só como fica mais fácil?!) é uma maneira de expressar agressão pelo silêncio, indiferença, meios indiretos, comportamentos negativos ou aparentemente apáticos. Pode variar desde uma resistência aos trabalhos do dia a dia em casa ou no trabalho, pode também ser um jeito eterno de empurrar com a barriga, os esquecimentos infinitos ou ainda, aquela ineficiência proposital, a insubordinação ao superior, a resistência ao atender ordens simples, o ressentimento que transborda em má vontade para com os outros e os compromissos, os comportamentos contraditórios - como quando a pessoa parece entusiasmada, mas tem atitudes de sabotagem e vários outros meios de fazer muito estrago na sua vida.

Eventualmente muitos de nós pode agir com agressividade-passiva, enquanto isso o clássico agressivo-passivo (PA, passivo-agressivo) transforma esse comportamento em algo padrão para usar nos relacionamentos com todas as pessoas ao seu redor. O importante então é entender para diferenciar o patológico do esporádico e aprender a lidar com essa pessoa. Para isso vamos começar do começo, do descobrimento da patologia.

O comportamento agressivo-passivo foi documentado pela primeira vez na II Guerra Mundial quando foi usado para descrever soldados que se recusavam a cooperar com as ordens de seus oficiais. Em 1945, o Departamento da Guerra dos Estados Unidos reclamou oficialmente de soldados que se esquivavam do trabalho, se fazendo de incompetentes. O relatório dizia que eles não estavam abertamente desafiando seus superiores, mas estavam expressando raiva através de "medidas passivas, como expressões de desprezo, teimosia, procrastinação, ineficiência, a criação sistemática de empecilhos e obstáculos". Eles classificaram o comportamento como imaturo e relacionado ao stress devido à rotina militar. Depois do final da guerra, o termo continuou sendo usado militarmente, mas não demorou muito para fluir ao mundo civil. Em 1952, o termo foi publicado no primeiro DSM com as mesmas descrições usadas nos manuais militares.

A APA (Associação Americana de Psicologia) foi muito criticada na época e por anos depois disso por simplesmente copiar e colar o diagnóstico militar e seus tratamentos. Além de ignorar os problemas com os soldados e trazer o novo diagnóstico patológico para o mundo civil do trabalho e da família. Para muitos esse efeito foi horrível, já que transformava em patologia os comportamentos totalmente comuns.

Então o DSM II definiu o comportamento como uma doença mental com origem na má adaptação e por isso deveria ser devidamente tratada. Aqui está a frase do Manual de 1968: "Esse comportamento geralmente reflete a hostilidade que o indivíduo sente e não se atreve a expressar abertamente. Muitas vezes, o comportamento é uma expressão do ressentimento do paciente ao não encontrar gratificação em um relacionamento com um indivíduo ou instituição da qual ele é excessivamente dependente". (APA, 1968, página 44, código 301.81)

Pausa para pensar. 1. Essa descrição já acende uma luz, não acha? É uma expressão do ressentimento por não encontrar gratificação em um relacionamento do qual ele é excessivamente dependente. Que tal deixar essa frase marinando nos seus pensamentos por um tempo? 2. É fato que algumas pessoas veem patologia em tudo e imediatamente iniciam o tratamento medicamentoso tarja preta para todo e qualquer mínimo desvio de comportamento. Por outro lado, essas descrições ajudaram a nominar o problema e também iluminar (literalmente) a existência de quem está em convívio (sofrimento) direto com essas pessoas.

Em 1994, depois de muito debate, deixou de ser classificado no DSM IV como transtorno de personalidade. Na verdade foi diluído dentro das Desordens de Personalidades Negativistas e colocado no apêndice para futura revisão e estudo. Os sintomas continuam sendo a resistência passiva aos trabalhos de rotina, tarefas sociais, desdém por autoridades, inveja, ressentimento e as queixas de serem mal compreendidas. Agora está incluso também o humor negativo e outros problemas de personalidade não específicos.

Hoje em dia, muitos psicólogos estão pedindo à volta da classificação, pois o foco nos pensamentos negativos não representa, nem determina claramente a situação dessas pessoas. Eles ainda pedem que os estudos sejam refeitos e renovados com o acréscimo de "Comportamento irresponsável, sentimentos internos de inadequação e necessidade de reconhecimento, ressentimento ruminante e desprezo por figuras de autoridade". 

Particularmente eu me coloco neste segundo grupo de reclamantes, pois a classificação poderia representar mais estudo e novas pesquisas sobre o assunto. No que diz respeito ao povo brasileiro é inacreditável que esse comportamento não seja estudado, lido, nomeado e relembrado diariamente. Sendo irrelevante, para mim que tenha sido descoberto inicialmente em militares da Segunda Guerra Mundial. Afinal todo mundo conhece funcionários que insistentemente quebram as ferramentas quando não querem trabalhar, amigos que têm uma má vontade mórbida com os outros ou maridos que sabotam as tentativas de felicidade da família.

Então, vamos falar sobre a agressividade-passiva?

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