setembro 17, 2018

Convivendo com um passivo-agressivo, o livro, capítulo 3

Atendendo a pedidos, cá estou eu dando continuidade ao resumão do livro do Dr. Scott no qual ele combina experiências de consultório, de amigos e observações sociais sobre a convivência com um passivo-agressivo.

- O seu nome é Dave?
- Sim! Meu nome É Dave!
Obrigado pelas BEBIDAS GRÁTIS!
Daves pela vida!!!

Lembrando que nada substitui a leitura do livro do próprio autor. Esse texto tem a intenção de ser a base introdutória para um assunto complexo que merece ser relido várias vezes durante o longo e duro processo de amadurecimento.


Quem cai no conto do homem passivo-agreesivo?

O autor começa o capítulo jogando uma batata quente no seu colo... E essa batata vai te deixar um pouco irritada, aviso. Se no capítulo anterior ele falou como você pode contribuir como passivo-agressivo, consciente ou não. Agora  ele vai focar em como você se apresenta para um cara desse tipo.

Ela se pergunta "Isso tudo é minha culpa? Eu falei ou fiz alguma coisas para provocar essa resposta?" ele responde: "Talvez sim." Porque todo relacionamento tem duas pessoas e a sua atuação é tão importante quanto a dele. Ele exercita o poder sobre você e geralmente consegue o efeito desejado. Não somente quando você é assertiva ou submissa, mas nas pequenas dicas que você dá.

Se você está lendo esse livro, afirma o autor, é porque tem problemas nesse relacionamento e o jeito mais fácil - por estar no seu controle - de mudar as coisas é mudar a si mesma. Auto conhecimento ajudará você a ver com exatidão quando se permite ficar num relacionamento que é insatisfatório ou que te restringe. Antes de mais nada verifique seu medo de abandono, ou separação.

A questão (estar com ele) parece um bom negócio quando você precisa preencher esse vazio, ainda que perdendo sua segurança. Afinal esse tipo, o passivo-agressivo não irá te rejeitar diretamente. Entretanto, esse preço pode ser um pouco alto de se pagar até que você esteja pronta para a mudança.

Algumas personalidades tendem a: vítima, salvadora e autoritáriaamos. Vejamos em qual delas você se encaixa.


A vítima

É o tipo que está sempre se desculpando por ter demandas ou necessidades. Ela pensa, com triste aceitação que é "melhor estar com ele do que ficar sozinha" ou "foi o que eu consegui para mim". Entram no relacionamento com esperança de ele melhore e sentem-se segura por serem amadas embora não tenham tanta intimidade com ele. 

A vítima, em geral se doa muito, mas para pessoas que nunca vão poder retribuir. Um dos exemplos é de uma paciente que estava noiva do cantor que nunca havia sequer composto uma música para ela. O rapaz chamado George fazia com que ela não se sentisse adequada para ele, nem mesmo se sentisse amada.

De fato Jane sabia que o tal relacionamento se parecia muito com o que havia tido com sua mãe. Para ela, o amor era facilmente associado com subtração, humilhação, promessas vazias e palavras não ditas. Ela cresceu sem saber como pedir as coisas que queria, afinal privação era o menu de todo dia. A ajuda veio em forma de reconhecimento de padrões de comportamento, do tipo: cancelar um encontro 10 minutos antes do horário, ou brigar sempre antes de irem dormir.

Jane aprendeu que abuso não é amor, mas amor pode ser usado como arma para abusarem dela. Que ela estava se humilhando por migalhas para estar ao lado de alguém que não dava a mínima para ela.


A autoritária

Algumas mulheres que se envolvem com homens passivo-agressivos gostariam que os homens se sentissem confortáveis para falar honestamente. Entretanto, autor percebeu que isso nem sempre é verdade, pois a autoritária não aceita um não como resposta. 

Pode até ser que o passivo-agressivo inicialmente desejasse expressar seus sentimentos, mas então ele é interrompido por uma desaprovação. Mais tarde ele não falará e ninguém será capaz de tirar palavras de sua boca. Afinal para a autoritária o mais importante é conseguir as coisas do jeito que ela quer.

No exemplo do Dr. Scott, Andreia mais se parece como uma chefe do que a esposa de Frank. Há tempos ela se recusa a ouvir o que ele tem a dizer e o destrata na frente de amigos. Ela está insatisfeita no trabalho e também no amor, sendo assim, desconta sua raiva no marido passivo-agressivo. Com receio de não poder recusar um pedido de sua esposa, ele não mais responde, vira de costas e sai andando. Atualmente a conversa não existe entre os dois, ele dorme na sala controlando a situação sexual do casal.

A primeira dica para resolver este caso é entender o próprio desejo de controle. Saber que a pessoa que está livre para falar também é livre para ir embora. Igualmente, é preciso aprender a receber um não como resposta, saber ser rejeitada. Lembre-se que o passivo-agressivo não tem nenhum medo de dizer não quando tudo o que você queria era ouvir um sim.


A salvadora

Existe uma tensão entre a mulher do tipo salvadora e o passivo-agressivo. Ela é a "mulher por trás de um homem de sucesso", a base e aquela que vai resgatá-lo. Ainda que baseada em motivos altruístas ela o superprotege transformando o relacionamento  (pessoal ou de trabalho) em algo maternal. Agindo como a "mamãe" dele você valida as tendências auto destrutivas dele - seja por algum vício, ou ainda pela incompetência social de se fixar num trabalho.

Mark e Rita se davam muito bem, mas recentemente ela tem reclamado da passividade-agressiva do marido. Entre outras coisas, ela notou que ele faz com ela seja vista como a "bruxa má" perante os amigos do casal. Ela é definitivamente a extrovertida, enquanto ele é o tipo que perde a estação do metrô indo parar no bairro perigoso da cidade por puro descuido.

Ao se sentir incompetente, na verdade
o homem não está muito longe de ser impotente.


Dr. Scott percebe que Rita está focada somente nas dificuldades do marido. Ela se esquece que ela também participa do distanciamento do casal. É preciso lembrá-la que antes de qualquer coisa, ele está sempre ao lado dela a acalmando. 

Todas as vezes que você age como uma figura de autoridade perante um passivo-agressivo, você assume uma responsabilidade que é dele e o estimula a ser dependente. Em doses homeopáticas você contribui para o tal comportamento. Neste caso, a dica prática do autor é: não conserte a pia que ele prometeu consertar, nem ligue para o encanador. Se fizer isso ele vai entender que você é a dominadora se ofendendo pelo seu poder. A resposta dele será a rejeição reforçando em você a ideia de que você não é boa o suficiente para ele. 

Como você já deve ter entendido, o passivo-agressivo é vulnerável e desajeitado com as mulheres. Quanto mais rápido você se reconhecer em um dos três estereótipos citados nesse capítulo melhor vai entender porque atraiu esse tipo para sua vida. Ironicamente, o passivo-agressivo também te protege da ansiedade de mudar.

Força! Agora você tem uma grande chance de parar isso que está te machucando e construir um ótimo relacionamento, no futuro.

***


O livro: Living with the Passive-Aggressive man; Coping with the Personality Syndrome of Hidden Aggression - from the Bedroom to the Boardroom, de Scott Wetzler, Ph.D. Em tradução livre Vivendo com o homem passivo-agressivo; Lidando com a Síndrome de Personalidade da Agressão Encoberta - da Cama à Sala de Reuniões. Autor: Scott Wetzler, Phd., New York, 1992.

setembro 14, 2018

Pique Esconde

Por Elisabeth Santos
© Richard J Thompson

Brincando de Pique Esconde estamos nós até os dias de hoje, que já não são... “da nossa infância querida que os anos não trazem mais.”

Eu brinco, tu brincas, ele brinca, nós brincamos...


Eu escondo, tu escondes, ele esconde, nós escondemos...


Não. Nós não conseguimos nos esconder. O serviço de Telemárquete nos acha onde quer que estejamos nós, a escondermo-nos!


Afinal por que me escondo se nada devo? Escondo-me justamente por nada dever, e também achar que tenho o direito de fazer o que bem quiser e entender dentro da minha própria casa, sem ficar ouvindo ofertas de algum negócio super vantajoso. Alias vantajoso para mim é que não há de ser! Vantajoso para quem está vendendo ou ofertando?


Sim! Ninguém faz ligação para um dos meus telefones para oferecer:


_Hoje você está recebendo um milhão em sua conta bancária como doação para pagar contas, presentear amigos, dar uma festa, gastar como quiser sem nem ter a declarar!


Também do jeito que as falcatruas correm soltas, acho que eu ia desconfiar e recusar-me a receber: “_Esmola demais até Santo desconfia”, já dizia meu bisavô, fervoroso em suas devoções.


E o Santo, mesmo muito Santo que seja, pode desconfiar sim: _ Aquilo não seria uma esmola, pois vem com um pedido dos grandes. Daqueles classificados como milagre. Eu não mereço. Ninguém merece!


Parodiando: “Eu me sinto infeliz como infeliz se sente, longe da Pátria amiga o aventureiro audaz...”

_ Eu me sinto feliz, feliz como passarinho a voar, longe de telemárquete protegida em meu lar!

Que jeito? Queixar-me com quem? Reclamar aonde?

E quanto mais deixo de atender ao telefone, mas o telemárquete liga. A Dona Bina, Cara Bina, amiga fiel, faz sua parte:

“_ Não atenda! É o Téle de novo!” - Afinal o que quer o Téle de novo?

Resolvo ouvir pela última vez: _ Bom dia, como vai você?bem graças a Deus, não é mesmo?que ótimo que tudo está indo bem com o emprego, a família, os vizinhos e o noticiário repleto de coisas boas né?o dia está lindo, os índices da bolsa estão melhorando para os investidores sem exceção, o país na santa paz, nada de desemprego, nada de crimes bárbaros, e sim muito conforto, saúde, dinheiro sobrando pedindo para ser gasto nos vantajosos planos que estou propondo-lhe hoje.hoje, só hoje.agora.é pegar e não largar pelas ultras vantagens oferecidas nessa oportunidade única.não.não responda não, antes de ouvir até o final o que tenho aqui para clientes fiéis.um pacote.sim um pacote imperdível. por apenas o dobro do preço que você investe conosco mensalmente, o quádruplo das vantagens que já tem disponíveis para os másters, os seniors, os especiais dos especiais.sem assinar ou apresentar documento algum a mais do que já tenho aqui diante dos meus olhos, você poderá falar ao telefone, ver filme na TV, ficar na internet vinte e quatro horas, ou mais, diariamente pelo resto da sua vida fazendo inveja a todos os amigos.mas eu ainda não disse tudo.não responda antes que eu termine de listar o que ainda nem chegou na metade.já pensou na vantagem de nem parar para fazer refeições?poder estar acompanhado pelo seu aparelho estando no wc?ouvir seu sinal mavioso enquanto faz amor,dorme,toma café, faz caminhada,visita os amigos,assiste a cerimônia religiosa,faz compras na feira,no magazine, no brechó da esquina?engole a água pura e cristalina da fonte natural,colhe vegetal orgânico, arruma a salada que nem terá tempo de provar?bebe cerveja com colegas, paga a conta sorrindo,pega o carro no estacionamento já com o áudio do aparelho no último volume.vai e volta para o trabalho sem precisar trabalhar, sem ter nenhum pepino a descascar, sem nenhuma amolação, nenhum pedido do chefe para ontem?tudo e muito mais.pegar ou largar pois não terá segunda, terceira ou milionésima vez.é só neste exato instante, momento, átimo de segundo que estou a oferecer-lhe tanta exclusividade.alguma pergunta?não, não pergunte já.vou adivinhar o que lhe passa pela cabeça.você deseja dirimir uma pequena dúvida, eu sei.deseja assuntar... se com tantos favores, por tão baixo custo não vai ter atravancamento, linha cruzada, grampeamentos indevidos, ligações de presídios de máxima a mínima segurança, atropelamentos, roubo de cargas eletrônicas, pane total ou quase no sistema, filas no atendimento hospitalar por desgaste nervoso dos habitantes, creches e escolas sem responsáveis, se enfim o sol vai voltar a brilhar... o mundo a passar quase desapercebido pelas quatro estações do ano, astronautas perdidos no espaço emaranhado por ligações que nem sabem donde vieram, ou para onde ‘tão indo...Perguntarei para a chefia. _Tú... tú... tú...


Elisabeth Carvalho Santos desde alfabetizada lê tudo que aparece à sua volta. Depois de aposentada professora (não de Português) resolveu escrever. Colabora com o jornalzinho da família, participa de concurso cultural e coleciona seus textos para publicar oportunamente. Os assuntos brotam de suas observações, das conversas com amigos e são temperados com pitadas de imaginação e bom humor. Costuma afirmar que "escrever é um trabalho prazeroso e/ou um lazer trabalhoso que todo alfabetizado deveria experimentar algum dia".               

setembro 10, 2018

Porque deixar bilhetinhos mal educados é um ato passivo-agressivo sim, Senhora!


Experimentos científicos como este aqui devem ser realizados num laboratório onde amostras podem ser monitoradas para se certificar que elas não serão contaminadas. Esta amostra definitivamente pode agora estar contaminada, estando aberta ao relento, então toda o seu árduo experimento científico pode estar perdido.
Por favor retire seu experimento desse lugar onde as pessoas se encontram e não apreciam a ciência como você.
 
Se a música está muito alta, você é muito velho.

Roubar plantas é um ato baixo e mesquinho.
O que vem depois disso? Bater em gatinhos?
Você é um idiota!

Uma poesia amigável
Novo vizinho, seja bem vindo
Pelos sons do meu teto
você é um dinossauro?

Como vai?
Esse lugar (número 56) pertence a um residente.
Não madei te rebocar hoje, mas na próxima vez,
engenhoca... NA PRÓXIMA VEZ!!!

Por favor mantenha a porta fechada!!!
Obrigada!!!


Por favor não use a fonte Comic Sans -
nós somos uma empresa da revista Fortune 500,
não uma barraquinha de limonada.

Por favor não me aperte com muita força, seja gentil.
Sinceramente, os abacates.


Outros textos que você vai gostar pode estar por aqui.

Convivendo com um passivo-agressivo, o livro, introdução

setembro 07, 2018

Ideias

Por Elisabeth Santos
Tenho muitas ideias de como salvar animais, apenas nem sempre tenho meios de executá-las. Para salvá-los de algum sufoco em que se envolveram inesperadamente, até que é fácil para mim que gosto desse ofício de salva-vidas.

Muitas vezes os próprios procuradores de encrenca não colaboram na operação salva bichinhos e aí... não tenho meios para tira-los do enguiço. Ao vir morar na casa onde moro, encontrava pássaros atordoados, caídos próximos ao muro pintado de azul céu. Pegava o binóculo para observar: eles vinham voando, voando, e distraídos pelo alimento que vislumbravam ao longe... TUM! Batiam a cabeça no suposto céu azul a murar meu pedacinho de chão!

E lá ia eu acudir mais uma vítima de uma miragem, ilusão de ótica ou qualquer outro nome que se possa dar ao fenômeno. Muito que bem, ‘garrei a pensar, chegando à conclusão que seria melhor mudar a cor do muro. Raciocinei por eliminação, imaginando-me um pássaro:

_ Verde? Não, pois ia assemelhar-se a vegetação. Amarelo? Também não, pois com a claridade do sol poderia ofuscar-lhes a vista. Vermelho vivo eu é que não haveria de querer no muro da minha residência! Então me decidi pelo marrom tijolo e ainda simulei com tinta branca, limitações parecidas com pedras e tijolões.

_ Quem haveria de arriscar-se? Ninguém, não é mesmo?

Deu certo o estratagema até que começaram a aparecer bichinhos afogados na piscina. Só poderiam estar com sede! Comprei uma fonte de concreto armado, própria para jardim, e mandei instalar. A água não seria desperdiçada naquele constante fluir, pois através de uma engenhoca, vinha a cair novamente.

Deu certo! Pelo menos por uns tempos...

Dalí a alguns dias os passarinhos começaram a vir visitar-me na minha própria casa! Tudo bem? Não! Eles entravam facilmente e não achavam por onde sair. E eu matutando:

_ O que vieram fazer aqui dentro, com tanta opção no meu (ou nosso) território?

Algo me dizia que tentavam encurtar o caminho do multicolorido jardim para o verde pomar, e se perdiam no labirinto de corredores e demais cômodos da casa. E agora?

A vassoura tinha cabo curto, mas dei um jeito de estendê-lo, e fui atrás para direcionar a saída ao intruso.

Algumas vezes a “operação salva aves” foi acertada e outras vezes não. Tive de fazer o enterro com honras e glórias para um batalhador valente.

Por que estou acrescentando isto? Porque, embora colocando quirela aos pássaros da natureza, eu observava que eles disputavam entre si com bicadas, uns querendo o quinhão do outro.

Ainda não entendi, pois havia água, alimento e espaço para todos. Acho que ainda terei muito a desvendar...




Elisabeth Carvalho Santos desde alfabetizada lê tudo que aparece à sua volta. Depois de aposentada professora (não de Português) resolveu escrever. Colabora com o jornalzinho da família, participa de concurso cultural e coleciona seus textos para publicar oportunamente. Os assuntos brotam de suas observações, das conversas com amigos e são temperados com pitadas de imaginação e bom humor. Costuma afirmar que "escrever é um trabalho prazeroso e/ou um lazer trabalhoso que todo alfabetizado deveria experimentar algum dia".

agosto 31, 2018

Realidade e Sonho IV


Por Elisabeth Santos


Bordei de dia e cochilei bordando. Vi um nó de linhas no bordado, peguei a tesourinha, cortei o nó sem perceber o pique dado no tecido. Agora restava pegar agulha de crochê para tentar pegar a malha escapulida. Teria que levantar-me da poltrona reclinável, e ir buscar a ferramenta necessária no cestinho de costuras. No exato momento em que me levantava... vi a malha solta, num efeito dominó, ir prosseguindo o caminho ponto a ponto fazendo um grande estrago.

Desesperei-me ao pensar que seria impossível sair dali sem que o meu movimento desfizesse o lindo casaquinho bordado.

Levantei-me assim mesmo!

Só não fui buscar agulha de crochê nem nada! Encontrava-me em outro ambiente, e a situação também era outra, e bem diferente.

Acordando do rápido cochilo, aliviada percebi não haver estrago nenhum no meu bordado.
Mas fiquei inculcada com o sonho. Por que vinha trazer-me aflição?

Acabei sossegando-me: _ Preferível um sonho, que uma realidade aflitiva!

“_ S’embora” tocar a vida pra frente, pois lá atrás vem gente! _ Ordenaria minha bisa; e que Deus a tenha.  




Elisabeth Carvalho Santos desde alfabetizada lê tudo que aparece à sua volta. Depois de aposentada professora (não de Português) resolveu escrever. Colabora com o jornalzinho da família, participa de concurso cultural e coleciona seus textos para publicar oportunamente. Os assuntos brotam de suas observações, das conversas com amigos e são temperados com pitadas de imaginação e bom humor. Costuma afirmar que "escrever é um trabalho prazeroso e/ou um lazer trabalhoso que todo alfabetizado deveria experimentar algum dia".

agosto 24, 2018

Realidade e sonho llI

Por Elisabeth Santos




As pessoas estavam chegando de longe para inesperada visita familiar. Era muita gente entrando, e cumprimentando os muitos que ali estavam. A criança ali perdida, só enxergando pernas indo, pernas voltando na sala de jantar assustou-se por não entender nada.

Um dos jovens tentava adivinhar o motivo daquela caravana de visitantes bem no horário de ser colocado o almoço na mesa, e chegou a preocupar-se com a demora da empregada em trazer a comida. O dono da casa, enxergando pouco devido à idade, distinguia os familiares que há tempos não via através de gestos e atitudes que permaneceram em sua memória:

Tio Juca é aquele que abanou o pó da cadeira com seu chapéu, antes de sentar-se.

Sinhazinha deve ser a que reparou a mesa de toalha alvíssima antes mesmo dos cumprimentos.

Quem fez um muxoxo, só poderia ser a megera da tia avó da turma.

As crianças correndo de cá pra lá... eram de uns que ali estavam, e de outros que não vieram. Certamente primos.

E chegado o momento, elas mesmas ofereciam petiscos de pepino picadinho com fatias de limão. Algumas deixavam escorregar do prato aquela salada, e eram ajudadas pelos maiorzinhos.

Todos aguardavam o almoço, que não vinha da cozinha silenciosa, e sem cheiro que pudesse despertar apetites... ou só davam a impressão, que algo haveria de acontecer em seguida?

Mas afinal, pergunto-me o porquê de tanta roupa de festa branquíssima num dia comum. Perguntaram-me agora por que alguém devolvia aos reais proprietários as joias retiradas do cofre aberto na estante do corredor.

E aquele silêncio o tempo todo que durou a visita, era impressionante!

Assim como apareceram, sumiram...

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Dia seguinte ouço no rádio notícias da festa do Bonfim iniciando naquele janeiro calorento de Salvador: a multidão vestida de branco percorrendo a pé os oito quilômetros de distância do Largo da Conceição ao Largo do Bonfim; as carroças enfeitadas conduzindo tanto os mais novos quanto os mais velhos; a lavagem da escadaria da igreja católica pelo povo do Candomblé, com muita água de cheiro; uns indo para agradecer, outros para pedir Paz, Saúde e Prosperidade, quando não vinham para os dois atos de Fé.

E a multidão não desapareceu... apenas misturou-se a todas as outras cores, sons, cheiros, crenças, num corpo a corpo de suor e ritmos pagãos adentrando noite e madrugada sem fim.         




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Elisabeth Carvalho Santos desde alfabetizada lê tudo que aparece à sua volta. Depois de aposentada professora (não de Português) resolveu escrever. Colabora com o jornalzinho da família, participa de concurso cultural e coleciona seus textos para publicar oportunamente. Os assuntos brotam de suas observações, das conversas com amigos e são temperados com pitadas de imaginação e bom humor. Costuma afirmar que "escrever é um trabalho prazeroso e/ou um lazer trabalhoso que todo alfabetizado deveria experimentar algum dia".

agosto 17, 2018

Realidade e sonho II

Por Elisabeth Santos
Gatinhos fofinhos também sonham?


Fatos e fotos fazem parte da realidade, mas há sonhos tão próximos do real, que só não podem mesmo ser fotografados. Talvez, algum dia, poderá sim existir instrumento preciso para tal.

Necessário é o sonho, preciosa é a lembrança dele. Há quem afirme nunca sonhar, pois ao despertar não se lembra de nada.

Há sonho que se sonha dormindo e torna-se realidade ao acordar. É raro! A realidade pessoal sim, vai sempre aparecer num sonhar dormindo, mesmo que camuflada. Tipo: _ Sonhei com um parente, e ele veio visitar-me.

Estudiosos do assunto não desistem de suas pesquisas. Desejam saber o quanto alguém pode ser ajudado pela interpretação dos seus próprios sonhos. Também se importam com o contrário. Isto porque, algumas pessoas, podem fixar na ideia de vivenciar na realidade o seu sonho, e com isso se esquecerem da vida.

O sonho faz parte do bom sono recuperador das forças para o amanhecer ativo. Lembrar- se ou não de um sonho nem faz diferença na disposição de trabalhar no dia seguinte...

Para quem não gosta do seu trabalho recomenda-se não ficar parado, sonhando acordado em horário de serviço. Fazer e seguir um planejamento de mudanças, aprender mais, tentar adaptar-se às inovações pode sim ajudar o insatisfeito a tomar novo rumo e fazer as pazes com seu “ganha pão”.

Quanto ao malandro, aquele que aprecia sombra e água fresca... Alimentando-se de desejos inalcançáveis sem buscar meios honestos de obtê-los... Não se sabe o que lhe aconselhar! 

Existe sim, a pergunta que não quer calar: _ E adiantaria indicar-lhe algo de bom? Levará a sério?

O conselho vai então para os desavisados:_ Não acredite em fortuna rápida, “vida boa” sem custo, negócios vantajosos sem garantias, amigos que aparecem quando tem interesse e somem logo mais.

Não é de hoje que se ouve a frase: Não tenho tudo que gosto, mas gosto de tudo que tenho.

_ Bons sonhos a todos!





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Elisabeth Carvalho Santos desde alfabetizada lê tudo que aparece à sua volta. Depois de aposentada professora (não de Português) resolveu escrever. Colabora com o jornalzinho da família, participa de concurso cultural e coleciona seus textos para publicar oportunamente. Os assuntos brotam de suas observações, das conversas com amigos e são temperados com pitadas de imaginação e bom humor. Costuma afirmar que "escrever é um trabalho prazeroso e/ou um lazer trabalhoso que todo alfabetizado deveria experimentar algum dia".

agosto 10, 2018

Realidade ou sonho l

Por Elisabeth Santos


Você aí que pensava não ser possível escolher sonho, saiba que na Confeitaria existem várias opções.

Brincadeira a parte, ouvi de certa amiga relatos de sonhos perigosos dos quais escapou ilesa raciocinando assim:

_ Sei que estou sonhando... então que venha a montanha intransponível; o urso feroz; o abismo ao final da estrada, ou seja lá o que for de ruim. Sempre hei de acordar bem, na minha cama, com a cabeça no meu travesseiro!

Estudos a respeito dizem que pode não ter sido só um sonho, a partir do instante em que o raciocínio lógico interviu.

Pior!

Conheço alguém que afirma gostar de sonhar dormindo, pois sonha em 3D, enxerga em tamanho real, e ainda em cores naturais. Passeando por lugares diferentes, lê placas, ouve músicas, conversa, e faz contas de quanto gastou no restaurante! Lembrar-se depois de acordado é que são elas. Talvez o último episódio do “filme” seja o mais lembrado, pois os olhos se movimentam muito em comparação com o pouco que se consegue lembrar.

Se aquele “sonhado dormindo” era real, se a pessoa sem sonambular saiu de sua cama... taí um mistério misterioso, a merecer investigação.


Poderíamos estar em dois lugares diferentes? Vivemos outra vida além dessa?

  



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Elisabeth Carvalho Santos desde alfabetizada lê tudo que aparece à sua volta. Depois de aposentada professora (não de Português) resolveu escrever. Colabora com o jornalzinho da família, participa de concurso cultural e coleciona seus textos para publicar oportunamente. Os assuntos brotam de suas observações, das conversas com amigos e são temperados com pitadas de imaginação e bom humor. Costuma afirmar que "escrever é um trabalho prazeroso e/ou um lazer trabalhoso que todo alfabetizado deveria experimentar algum dia".



agosto 03, 2018

Esqueça

Por Elisabeth Santos


© Nejron


O que se chamava caduquice, e vinha com a terceira idade, hoje tem nome de Alzheimer. Tudo bem que os sintomas foram cientificamente esmiuçados, as causas investigadas, os doentes observados devidamente nas fases que iam surgindo.

A cura, tanto daquela caduquice quanto do que vemos agora, com muitas pesquisas realizadas, ainda não está ao alcance dos pacientes por tratar-se de uma doença degenerativa; de desgaste mesmo, ou do envelhecimento, como preferirmos denominá-la enfim.

Conversando com pessoas idosas recém-conhecidas, por não estarem no meu âmbito familiar, demorei a distinguir as que mereciam mais atenção nos lembretes de atividades bem simples, que dependiam da memória recente. Dando sequência a uma conversa normal, aparentavam estar bem. Dali a pouco, do nada, surgiam perguntas assim:

_ Quem é mesmo você? Mora aqui? O que faz?

E às minhas indagações rotineiras de eventual cuidadora delas:

_ Quer almoçar? Tomar um banho? Dar uma volta lá no jardim? Respostas convictas e semelhantes:

_ Já fiz isto hoje!

Se assim continuássemos, não chegaríamos a lugar algum. Resolvi fazer uma modificação na abordagem.

Minha estratégia, para atingir os objetivos imprescindíveis, agora era:

_ Está na hora do lanche, vamos lá!

Tomava eu mesma a iniciativa, colocando Don’Ana na postura de seguir minha ideia do que era necessário fazer naquele momento. Só assim consegui não deixar para trás nenhum dos seus saudáveis hábitos diários.

E minha amiga pegava as agulhas de tricô e tecia... para dali a pouco desmanchar duas ou três carreiras e nunca terminar a peça começada. Tricotava, desmanchava uma parte, para em seguida refazê-la, sem perceber que não avançava no rendimento do trabalho assim feito e refeito incansavelmente. Ou será que percebia?

Eu não queria que ela fizesse sempre a mesma coisa, estando numa única postura corporal, assentada diante de um aparelho de TV ligado, então insistia:

_ Don’Ana, por que desfez um trabalho tão lindo? - e ouvia a mesma resposta:

_ Tinha um erro. Precisava corrigí-lo!

Aos meus olhos, nada de erro.

Seria perfeccionismo ou uma lembrança dos tempos de aprendizado de trabalhos manuais, quando a suposta exigência seria da mestra que permaneceu inesquecível? Então seria assim: tudo que foi muito repetitivo em algum período daquela vida estaria memorizado “ad eternum”? (- Que ruim esse tal de alemão registrado Alzheimer - eu não deixava de ironizar interiormente.) E assim resolvi que ia trocando a cor da lã, para que ela pudesse fazer alguma observação. Às vezes sim... às vezes não... Don’Ana pedia o seu tricô original conseguindo distinguí-lo em meio de tantos outros novelos e agulhas de diferentes espessuras e tonalidades.

Os primeiros dias do inverno passando, meu estágio quase terminando...

As conversas em momentos de lucidez eram bem interessantes:

_ "Tive uma infância feliz na fazenda de minha família em Engenho Novo, estado de Minas Gerais. Tenho saudades daqueles tempos. Meus irmãos e eu brincávamos em meio de tanta vegetação, inventávamos brinquedos em horários não escolares, mas ajudávamos também. Depois do café da manhã, papai saia para a lavoura e eu o seguia para ajudar. Se ele fazia a cova para os grãos eu a fechava com o pé. Se ele colhia eu auxiliava carregando o que dava conta.

Aos treze anos tive a incumbência de pajear minha irmã mais nova, porém ela morreu cedo me deixando pesarosa e só. Em meus pensamentos procurava, sem achar, uma causa para a morte precoce da maninha. Sem ter alcance para um raciocínio lógico satisfatório, ouvindo dos mais velhos, que ela se foi pela vontade de Deus, sem compreender porquê Ele a tirou de mim, acabei por sentir-me culpada de alguma negligência no cuidado com a criança.

Aos dezesseis anos apaixonei e fiquei noiva de um rapaz bom e trabalhador. Só não tive coragem suficiente para o casamento. Desisti de última hora, achando que não conseguiria, principalmente, ser boa mãe. Escolhi a carreira de professora, mas estando com emprego fixo num Colégio, fui convidada a trabalhar na tesouraria. Ali fiquei até a aposentadoria por meu próprio gosto e mais uns dez anos por insistência da diretoria. Fui ensinando meu serviço, passando as responsabilidades para funcionários mais jovens, pois percebi que “um certo alemão” começou a se declarar demente por mim, interferindo nas minhas lembranças recentes, atrapalhando meu dia a dia no serviço. Resolvi aposentar-me de vez, consciente de já poder parar, antes de comprometer negativamente a tarefa que desempenhei com tanta seriedade, dedicação e amor."

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Em outros momentos, minha amiga coloca no bolso do casaco de frio a caixinha do medicamento diário. Tricota mais duas carreiras de ponto Segredo e a desmanchar as três últimas carreiras lembra-se que ganhou um presente. Enfia a mão no bolso e pegando a caixinha agradece-me assim:

_ Gostei muito deste lindo presente que você me deu, viu?

E guarda-o no mesmo bolso.

Hoje sim tive a certeza que Don’Ana não poderá ficar sem alguém responsável por ela.

Inicio uma sessão musical de tempos colegiais, composta de cantoria de várias vozes e observo olhinhos brilhando ao meu redor até que uma lágrima caia.

Esqueça tudo o que seu estudo acadêmico ensinou-lhe para chorar também.



Elisabeth Carvalho Santos desde alfabetizada lê tudo que aparece à sua volta. Depois de aposentada professora (não de Português) resolveu escrever. Colabora com o jornalzinho da família, participa de concurso cultural e coleciona seus textos para publicar oportunamente. Os assuntos brotam de suas observações, das conversas com amigos e são temperados com pitadas de imaginação e bom humor. Costuma afirmar que "escrever é um trabalho prazeroso e/ou um lazer trabalhoso que todo alfabetizado deveria experimentar algum dia".